Opinião

Do Torreão da Fajã: semana 18 de 2026… a semana horribilis?!

Há semanas que passam. E há semanas que ficam.

A semana 18 de 2026 arrisca-se a não sair tão cedo da memória coletiva açoriana. Não por um acontecimento isolado, mas por um encadeamento quase coreografado de episódios que expõem, sem filtro, o estado da nossa governação.

Para uns, foi apenas a continuação de um filme que começou a ser exibido no início do ano, em que, a partir de Lisboa, assistimos ao n.º 2 do Governo a mandar recados ao n.º 1. Algo inacreditável. Para outros, com a entrevista de José Bolieiro, também a partir de Lisboa, assistimos a um verdadeiro ato de “harakiri” político, feito à vista de todos.

Episódio 1 – O anúncio enviesado de José Bolieiro

Admitindo que não se tratou de um momento de azelhice política, o que seria, convenhamos, perturbador, José Bolieiro fez algo que levanta uma leitura igualmente perturbadora: ao sentenciar o fim da coligação, não apenas expôs fragilidades externas, como também deixou a nu uma dúvida interna, a de saber até que ponto acredita no seu próprio Governo e no rumo das suas políticas.

E quando um líder político deixa essa dúvida no ar, o problema deixa de ser tático. Passa a ser estrutural.

Este episódio abre, inevitavelmente, um ciclo de instabilidade política. Nem que seja porque os parceiros minoritários da coligação, que até aqui sustentaram a solução, procurarão, legitimamente, diga-se de passagem, garantir a sua própria sobrevivência num cenário que deixou de oferecer previsibilidade e em que terão de ir sozinhos a votos.

E quando a ação política se reduz à gestão do imediato, à resposta circunstancial, ao equilíbrio frágil entre sensibilidades, o risco é evidente: governar passa a ser apenas a arte de ir servindo pequenos interesses, em vez de construir um caminho coletivo. E, por certo, não é isto que queremos para os nossos Açores.

Não surpreende, por isso, que vozes no próprio espaço político do Governo tenham reagido com dureza. Um dirigente do CDS, também vice-presidente da Câmara da Praia da Vitória, classificou este momento como uma espécie de “apunhalar nas costas” de quem viabilizou a solução governativa.

Independentemente da formulação, mais ou menos dura, a questão essencial mantém-se: a confiança política não é um detalhe acessório. É o cimento de qualquer solução de governo. E quando esse cimento estala, nada fica verdadeiramente seguro. É o que estamos assistindo.

Episódio 2 – a subida dos combustíveis e a apatia de quem decide

Todos sabíamos que os combustíveis iam subir e bem. Várias vozes, com destaque para o Presidente do PS, Francisco César, alertaram atempadamente para o inevitável e pediram ao Governo que fizesse o que se exige a quem governa: antecipar. Antecipar para mitigar. Antecipar para proteger famílias e empresas de um impacto já anunciado.

E convém sublinhar o óbvio: isto dependia exclusivamente de vontade política. Dependia do Governo Regional, do seu Presidente e do seu Conselho. Não dependia de terceiros, muito menos de quem, no fim da cadeia, simplesmente precisa de “encher o tanque”.

Mas, fiel ao padrão que vem se consolidando, o Governo nada fez. E pior do que não fazer foi assumir, com uma tranquilidade desconcertante, que nada faria. Fica a dúvida: não ouviram? Ou não quiseram ouvir? É que, para ignorar tantos alertas, só mesmo com “cera nos ouvidos”, ou, quem sabe, distraídos com mais um episódio motivacional importado de outras latitudes.

O mais caricato veio depois. Já com o impacto instalado, com famílias e empresas a absorverem a “pancada”, José Bolieiro veio a público anunciar disponibilidade para, imagine-se, a meio de maio, ajustar o preço… mexendo na fórmula. E aqui impõe-se a pergunta simples, quase ingénua: se há margem para mexer na fórmula a 15 de maio, por que razão não foi usada a 28 de abril para amortecer o choque? A resposta não é técnica. É política. Não quiseram, não tiveram vontade. É o que é.

E o que esta sequência revela não é apenas atraso, mas sim displicência. É a sensação de um governo mais preocupado em gerir receita, de que necessita como de "pão para a boca", do que em gerir impacto no bolso do povo. Este governo está mais interessado no encaixe imediato, do que preocupado com a pressão real sobre quem vive e trabalha nas nossas ilhas.

No fim do dia, há uma conclusão que se impõe: perante a escolha entre aliviar quem produz e arrecadar mais uns milhões, a decisão foi clara: penalizar o Povo. E isso diz muito de quem está a governar.

Concluindo (para já)

Do Torreão, onde já vê velas negras no horizonte, o exercício é simples. Se juntarmos as peças - o anúncio enviesado de José Bolieiro, a inação perante a subida dos combustíveis, a falta de atitude perante as “aldrabices” de Lisboa no subsídio de mobilidade, os sinais preocupantes nos indicadores e a indefinição em torno do novo hospital de Ponta Delgada— percebemos que o problema não está nos episódios. Está no padrão.

Não foi uma semana excepcionalmente má. Foi uma semana reveladora. Reveladora de uma governação que reage tarde, comunica mal e decide pior. Que oscila entre o silêncio e o improviso. Que, quando confrontada com escolhas difíceis, tende a optar pelo conforto imediato em vez da responsabilidade estratégica. E, sobretudo, reveladora de algo ainda mais inquietante: a ausência de rumo.

Porque quando um governo não antecipa, não protege nem lidera, limita-se a gerir o calendário. Vai andando, vai reagindo, vai tentando manter-se à tona, enquanto a realidade segue outro caminho.

Talvez por isso, no meio de tanta explicação e justificação (ou falta dela), comece a impor-se uma leitura mais simples: não estamos perante falhas pontuais. Estamos perante um modo de (não) governar.

E isso não se resolve com ajustes na fórmula, nem com anúncios a meio do mês.

Resolve-se com um novo rumo. Com mudança, rumo a um Novo Futuro.